
Resolvi escolher, finalmente, um dos meus filmes cabeça-dinossauro para comentar – o soberbo The Ninth Gate (O Último Portal). É possível ainda referenciá-lo com o penúltimo post do Newton Uzeda, que se inicia em um escândalo sexual com uma menor de idade.
Filme dirigido por Roman Polanski e meio que esquecido e desvalorizado pela crítica, não existe sequer uma versão para DVD aqui no Brasil (quase que furto a versão VHS da 2001). Graças ao bom Diabo, Capeta, Satanás, Capiroto, Tinhoso existe o Pirate Bay.
O enredo, de modo simplificado, gira em torno de Dean Corso (Johnny Depp), um negociante de livros raros que é contratado por um acadêmico poderoso com interesses em demonologia – Boris Balkan (Frank Langella) – para que um livro possa ser autenticado, o “De Umbrarum Regis Novum Portis” (ou Os Nove Portais para o Reino das Sombras). Tal obra, reza a lenda, permite a realização de uma invocação satânica conferindo poderes inimagináveis para quem desvende o seu enigma, na forma de nove desenhos. Isso somente é possível, pois esses desenhos foram copiados de um livro apócrifo (o Delomelanicon, primo do Necronomicon que tanto atormentou Bruce Campbell), cuja autoria é atribuída ao próprio Lúcifer.
O filme acerta magistralmente na fotografia, roteiro hipnótico, trilha sonora (de Wojciech Kilar) e direção. Impossível não comentar sobre um possível paralelismo entre a cena em que Boris Balkan toma de assalto o púlpito dos satanistas aristocratas – liderados por Liana Telfer (Lena Olin) – e os ridiculariza, e a cena do De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, dirigido por Stanley Kubrick) em que o penetra da orgia dos aristocratas é ridicularizado pelo mestre de cerimônia.
É válido analisar o filme pela lógica do conhecimento, já que O Último Portal foi baseado no livro El Club Dumas, de Arturo Pérez-Reverte. O anjo que se rebelou contra Deus e que ganha o título de Portador da Luz tem nos livros a sua morada e manifestação de poder – se o divino é o místico e a fé, o satânico é certamente a Verdade e o questionamento. Roman Polanski ironiza o gênero de filmes sobre ocultismo, saturado de clichês.
É impossível não enxergar os personagens poderosos com certa comicidade, conforme somos expostos às falas vazias, rituais esdrúxulos e veneração cega – mas de tal modo que o elemento principal, ou seja, o conhecimento proporcionado pelo livro é apresentado como instrumento para que o homem possa reger o mundo. O mais assustador, justamente, é o destino de Dean Corso, que é alheio a todo e qualquer tipo de crença.
Seria interessante também chamar a atenção para um sub-tema: a presença imprescindível do feminino na jornada de transformação do masculino (os opostos primordiais e todo aquele blá-blá-blá do qual todos já estão cansados). Emmanuelle Seigner, já fora dirigida por Polanski em outro filme altamente recomendável (Lua de Fel, ou Bitter Moon), faz parte da (minha) tríade de atrizes-musas, sendo as outras duas integrantes Juliette Binoche e Lena Olin. Alguém consegue distinguir cada estereótipo da mulher atraente? Acredito que isso seja bem didático após o auxílio das três.
Falando em trilogias, O Último Portal fecha (para mim) o ciclo de finais com o tema “O indivíduo e o mundo” – definição que soa como um trabalho de sociologia de quinta categoria, mas acreditem, a outra que tenho em mente mais parece título de livro de auto-ajuda…
O primeiro é o Blade Runner – O Caçador de Andróides (versão do diretor). O segundo é o Unbreakable (Corpo Fechado). Cada filme pede uma resenha própria – o primeiro, que não fez sucesso logo de cara, passou a ser cultuado. Já o segundo, por ser mais novinho, carece de um grupo que dê início a sua aura de “cult“.
Finais sem finais sempre caem bem (não confundir com finais-em-aberto).
Der Springer



















